Pesquisa - Amazônia Adentro



Roteiro realizado na pesquisa para a criação do espetáculo AMAZÔNIA ADENTRO - Infanto-Juvenil (Em temporada de 26 de junho a 15 de agosto de 2010 no Centro Cultural São Paulo, Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1000. Sábados e Domingos as 16:00 hs).


20 de dezembro de 2008 a 19 de janeiro de 2009 - No primeiro mês de pesquisa ficamos (Juliana Offenbecker e Priscila Harder) hospedadas em Manaus. Lá conhecemos a história da cidade, visitamos museus regionais, conversamos com biólogos, folcloristas e estudiosos da região. Fomos para as comunidades caboclas e/ou ribeirinhas dos municípios de Manacapuru, Iranduba, Careiro Castanho, Tarumã Mirim e comunidades localizadas na periferia de Manaus, onde apresentamos histórias do nosso repertório e ouvimos histórias das comunidades.

Também fomos pesquisar nos municípios de Presidente Figueiredo e Novo Airão (onde tivemos duas grandes oportunidades: nadar com os botos tucuxi e vermelho e entrar na reserva florestal de Anavilhanas - maior arquipélago fluvial do mundo formado por 400 ilhas, com centenas de lagos, rios, igapós e igarapés, situado no rio Negro).

Enfim, encantadas pela riqueza cultural das lendas e histórias populares amazônicas, mergulhamos numa vivência da cultura e das tradições da região. Voltamos para São Paulo com as malas repletas de livros, fotos, histórias, referências, informações, e com a cabeça cheia de idéias e vontade de compartilhar um pouco das riquezas culturais da Amazônia, ainda tão pouco conhecidas.


05 de fevereiro a 15 de dezembro de 2009 – Lemos e estudamos todo material que trouxemos (livros regionais, livros teóricos sobre a cultura amazônica, CDs e DVDs de artistas regionais, fotografias, anotações e gravações feitas por nós). Decidimos o tema central que queríamos nos aprofundar e selecionamos no material estudado que teria que ser aprofundado e discutido para gerar o espetáculo. Como estávamos com muito material foi bem difícil definir este foco, mas aos poucos fomos amadurecendo as idéias e conseguindo formalizar uma proposta de dramaturgia.

Neste momento convidamos a dramaturga e diretora teatral Solange Dias para participar deste projeto. Fomos construindo aos poucos a dramaturgia apresentando o material que pesquisamos na forma de pequenas cenas improvisadas ou de pequenos textos escritos durante provocações instigadas pela dramaturga.

Em junho tínhamos construído um primeiro roteiro dramatúrgico do espetáculo, uma espécie de canovaccio.

Neste ponto, começamos a trabalhar cena por cena de forma mais aprofundada, dando mais contorno para ação dos personagens que também estavam sendo melhor definidos. Durante esse período chegamos numa primeira versão do texto.

Em posse deste texto, no mês de outubro convidamos mais artistas a comporem este espetáculo. Fizemos a primeira reunião de produção com toda a equipe (cenógrafa, figurinista, iluminadora, diretor musical, diretora / dramaturga e atrizes) onde lemos esta primeira versão do texto e abrimos para cada artista começar sua criação neste espetáculo.

Dia 20 de novembro cada artista trouxe sua proposta que foi discutida e analisada entre todos até chegarmos numa proposta chamada de “ideal”. Neste momento a produção realizou uma pesquisa de orçamento e viu o que seria viável de ser realizado sem patrocínio, tendo como recurso com o caixa de outros trabalhos da companhia.

Em dezembro unimos o orçamento com as propostas “ideais” e definimos parte do espetáculo.

18 de dezembro de 2009 a 16 de janeiro de 2010 – Voltamos para Manaus com o objetivo de vivenciar a relação da nossa criação com a realidade regional, pesquisar as personagens e imergir no dia-a-dia do povo ribeirinho e caboclo.


Durante nove dias (19 a 27 de dezembro de 2009) visitamos as comunidades de Lindóia, Sol Nascente, Itacotiara, Ramal do Muiracupuzinho, do Rio Urubu, Santa Luzia – Tarumã, Araçá, Manaquiri, do Cacau (todas comunidades localizadas nos municípios próximos de Manaus); e 03 comunidades ribeirinhas do rio Negro. Nestas comunidades apresentamos narração de histórias do nosso repertório, comemos nas comunidades e conversamos com crianças, jovens, adultos e idosos.

Nos dias seguintes (28 de dezembro de 2009 a 01 de janeiro de 2010) marcamos reuniões e encontros com artistas manauaras e estabelecemos algumas parcerias para nosso espetáculo. Também criamos uma rede de contato com amigos que nos indicaram para amigos das comunidades que iríamos passar na nossa viagem de imersão. Definimos nosso roteiro com a ajuda de um amigo caboclo que nos orientou para uma rota de barco de Manaus até Belém com paradas em comunidades ribeirinhas, cidades no interior do Amazonas e oeste do Pará, uma rota realizada pela população nortista, mas com indicação de embarcações seguras e confiáveis. Compramos as passagens e alguns utensílios básicos amazônicos, como uma rede para dormir e cordas para atá-la.

Embarcamos com destino a Parintins no dia 02 de janeiro, no barco “14 de outubro VII”, atamos nossas redes em meio a centenas de redes, malas e objetos. Deitadas nas redes vimos nosso barco se afastando de Manaus e pouco a pouco o rio foi ganhando dimensão e enxergávamos poucas terras ao longe. Foram 24 horas de viagem.


Chegamos em Parintins dia 03 de janeiro as 10 horas da manhã, desembarcamos, demos uma volta pela centro da ilha e ficamos esperando nosso contato, Marcos Boi – coreógrafo e compositor do boi garantido e integrante do grupo musical Ajuri, que nos hospedou em sua casa. Através dele conhecemos o bumbódromo, os bastidores do Boi Garantido, conversamos com os artistas e pensadores do boi, entrevistamos o chefe da tribo dos Sateré-maué, participamos de saraus e conhecemos algumas pessoas que vivem em comunidades quilombolas de Barreirinha e ouvimos muitas histórias do imaginário amazonense. Também conhecemos, porém com menos intensidade, o boi caprichoso e alguns de seus torcedores. Ficamos em Parintins até o dia 06 de janeiro e depois partimos de barco para Oriximiná – PA.


Dia 06 de janeiro de 2010, depois de 09 horas de viagem, desembarcamos em Oriximiná - PA. Ficamos hospedadas na casa da família do Paulo Jesus da Silva (conhecido na cidade como Paulão do Tijolo – por ser vendedor de material de construção). Oriximiná é uma pequena cidade do Pará, quase na divisa com o estado do Amazonas, que transpira histórias e lendas. O lugar parece encantado de histórias, todos já passaram por alguma coisa sobrenatural e isto faz parte do dia-a-dia da comunidade. Em Oriximiná conhecemos uma comunidade quilombola, o secretário de cultura (Cleonis) e diversos grupos teatrais amadores, que fazem lindos trabalhos para crianças e jovens nas escolas preservando as lendas e tradições da região. Nesta cidade escutamos e vivenciamos muitas lendas, foi fantástico como repertório imagético para nosso espetáculo.

Embarcamos para Santarém dia 08 de janeiro as 21horas, passamos mais uma noite nas nossas redes que dessa vez balançaram muito mais devido a uma grande tempestade.


Chegamos a Santarém dia 09 de janeiro às 5 horas da madrugada. Esperamos nosso contato (ator e produtor de um grupo teatral de Santarém) que nos levou até Alter do Chão – vila de pescadores e caboclos, onde acontece a Festa do Boto e Festa do Sairé.

Conhecemos o Ponto de Cultura OCA e através da Ação Griô e do aprendiz Griô Marco Aurélio de Vasconcelos fomos até a casa e entrevistamos Silvito Malaquias, criador do grupo tradicional de Sairé ESPANTA CÃO.

Na praça central de Alter do Chão conhecemos uma família de ribeirinhos e partimos com eles para sua comunidade na Reserva florestal FLONA, que fica localizada a cinco horas de barco de Alter do Chão pelo rio Tapajós.

Ficarmos hospedadas 03 dias no meio da floresta na casa de ribeirinhos. Tudo era muito simples: a casa, construída de palha e madeira, não possui porta ou janelas fechadas, o banheiro era um buraco no chão (uma fossa) e o banho era no próprio rio, a comida sempre farinha (grossa e amarela) e peixe, a cama era a rede com mosquiteiro e o quarto uma oca sem paredes. Na primeira noite não conseguimos dormir, o barulho da mata era assustador pra quem não está acostumado. Nos dias seguintes caminhamos pela floresta amazônica, vimos diversos bichos, ouvimos muitas histórias e fomos numa caçada esportiva de jacarés (onde o ribeirinho Iracildo entrava no meio dos jacarés e os pegava apenas com seus braços e depois soltava, um desafio de força e poder do homem ribeirinho).

Voltamos para Alter do Chão e ministramos uma oficina de narração de histórias para jovens voluntários da biblioteca do Ponto de Cultura OCA.

Chegamos dia 15 de janeiro em Belém, onde fizemos compras de produção para o cenário do espetáculo no mercado Ver-o-peso. Conhecemos alguns pontos turísticos da cidade, alguns teatros e espaços culturais.

Dia 16 de janeiro de 2010 voltamos para São Paulo.

18 de janeiro até 20 de maio de 2010 – Finalização da versão oficial do texto. Reunião geral com equipe de criação. Produção executiva. Confecção de cenário, figurino, bonecos e adereços. Ensaios intensivos e convite para estrear o espetáculo no Centro Cultural São Paulo.